8. ARTES E ESPETCULOS 19.9.12

1. MSICA  A REGNCIA NO LABORATRIO
2. TELEVISO - COMDIA IRADA
3. CINEMA  A LTIMA VANGUARDA
4. LIVROS  O TRIBUNO DA INTERNET
5. VEJA RECOMENDA
6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  POR MOTIVO DE SEGURANO

1. MSICA  A REGNCIA NO LABORATRIO
Um experimento indito feito por cientistas italianos mostra que a msica soa melhor quando o maestro consegue estabelecer o seu comando sobre os msicos da orquestra.
SERGIO MARTINS

     Do alto de seu pdio, o maestro comanda a orquestra. Munido de uma varinha conhecida com o nome de batuta, do italiano batidas , ele faz gestos ora frenticos, ora suaves para um combinado de cordas, madeiras, sopro e percusso. Os aspectos teatrais da atuao de um regente so familiares a todos os que j viram uma orquestra em ao  mesmo que brevemente, em algum programa de televiso  e foram caricaturizados at em desenhos aminados do Mickey ou do Pernalonga. Mas s os conhecedores entendem exatamente a relao entre os gestos do maestro e o som que sai dos instrumentos. Passado o perodo de ensaio, quando o regente firma suas orientaes,  mesmo necessrio que ele permanea ali? Em que medida a interpretao dos msicos realmente obedece aos movimentos da batuta? Os neurocientistas Alessandro DAusilio, do Instituto Italiano de Tecnologia, e Luciano Fadiga, da Universidade de Ferrara, finalmente encontraram uma maneira cientfica de medir em que extenso um regente comanda mesmo os msicos  e quanto isso importa para a qualidade musical.
     O experimento foi feito com a ajuda de oito violinistas da Orquestra da Cidade de Ferrara e de dois regentes. Os msicos executaram cinco trechos da Sinfonia N 40, de Mozart. Os violinistas traziam, na ponta de seu arco, um marcador sensvel  luz infravermelha. Na ponta da batuta instalou-se outro marcador. Os cientistas ento imergiram a orquestra em raios infravermelhos para que seus medidores pudessem traar os movimentos de arcos e batutas. Quando o maestro acelerava o andamento com a batuta, uma cmera registrava com que defasagem os msicos respondiam s mudanas de dinmica. A anlise das imagens permitiu verificar quando o maestro estava de fato no comando dos msicos  e quando eles apenas fingiam seguir a batuta, preferindo orientar-se uns pelos outros. Essa prtica, alis, se revelou bem mais frequente do que os regentes gostariam de admitir. Para computar os dados, foi utilizado um recurso matemtico conhecido como Casualidade de Granger, que permite determinar como uma sequncia de movimentos afeta outra. Em trs trechos, no houve diferena significativa que se pudesse atribuir ao poder exercido pelos dois maestros sobre os msicos. Nos outros dois, porm, um dos maestros revelou uma ascendncia significativamente maior sobre a execuo. Em uma fase posterior da pesquisa, as gravaes de cada trecho de Mozart foram analisadas por um painel de msicos. Eles chegaram  concluso de que os melhores resultados foram obtidos pelo maestro que imps maior obedincia aos violinistas. Quando o regente manda, a msica melhora.
     Luciano Fadiga, um dos mentores do experimento, conta que este causou um pequeno mal-estar na orquestra. O regente que apresentou resultados inferiores estava acostumado a tocar com os msicos de Ferrara, diz (para evitar constrangimentos, o nome desse maestro  mantido em segredo). J a maestrina francesa Sera Tokay, que exerceu um domnio maior sobre a orquestra, nunca a havia regido e, em observncia aos termos do estudo cientfico, nem sequer pde conversar com os msicos. A ideia era descobrir se ela conseguiria fazer de sua regncia uma forma de comunicao direta com o grupo de violinistas, explica Fadiga. Sera Tokay acredita nesse princpio: O dialogo entre o regente e seus comandados no se faz atravs de palavras, mas sim da preciso dos seus movimentos.
     A ideia de estudar a interao de um regente com sua orquestra se deu h quatro anos, quando Fadiga assistiu a um concerto de piano de Chopin interpretado por Martha Argerich e regido por Claudio Abbado. A maneira como ele arrancou um som mgico daquela orquestra me deixou fascinado, confessa. Para um neurocientista, revelava-se ali uma boa oportunidade para estudar formas dinmicas de comunicao no verbal  a ambio do pesquisador  ampliar o escopo de seu trabalho, encontrando meios de verificar se a expresso facial ou at a respirao de um maestro tem influncia sobre os msicos.
     O relacionamento entre o regente e seus comandados  uma das mais complexas interaes humanas. Alguns dos grandes maestros da histria se notabilizaram pelo estilo autoritrio. Tal era a fama do austraco Herbert von Karajan que certa vez explicou em termos crus por que preferia reger a Filarmnica de Berlim a conduzir a de Viena: Em Berlim, se eu ordenar que meus msicos deem um passo  frente, eles me obedecem na hora. Em Viena, eles tambm me obedecem, mas depois perguntam por que eu dei essa ordem. Os msicos, por seu lado, tentam, na medida do possvel, reclamar autonomia. A batuta, afinal,  silenciosa: so os flautistas, obostas e violinistas que produzem som. No fao ideia do que o senhor Leonard Bernstein vai reger hoje. Ns tocaremos a Stima Sinfonia de Beethoven, disse um membro da Filarmnica de Viena, na noite em que o regente americano  conhecido por gestos teatrais, mas no muito precisos  estreou  frente do grupo sinfnico austraco. Resulta da um teste de fora entre msicos e regentes  que, alis,  documentado pelos grficos dinmicos com que os pesquisadores italianos representam a atividade dos msicos e do maestro.
     A figura do maestro data do sculo XVIII, do perodo conhecido como clssico. Antes de sua ascenso, cabia aos prprios msicos ditar o andamento e as entradas durante a execuo de uma obra, o que se tornou difcil com a incluso de cada vez mais instrumentos nas orquestras. Os antecessores dos maestros faziam uso de um basto para marcar o tempo das obras  em um caso bizarro, o compositor e maestro francs Jean-Baptiste Lully acertou com o basto o prprio p, que gangrenou. O msico morreu em poucos dias. A batuta surgiu somente no sculo XIX pelas mos do violinista, regente e compositor alemo Ludwig Spohr (1784-1859). Permitiu mais preciso no modo como o maestro sinaliza a entrada de msicos e solistas. A funo do regente, porm, no se limita a dar essas deixas. Cabe a ele a misso de determinar a velocidade e a intensidade com as quais a obra ser executada. s vezes, uma partitura de Beethoven diz crescendo. Mas, se todos os instrumentos da orquestra subirem no mesmo instante, voc no os escutar.  necessrio equilibr-los para obter um melhor resultado musical, disse o maestro israelense Daniel Barenboim. A emoo de uma obra depende das escolhas do maestro.
     No sculo XX, consagraram-se dois estilos fundamentais de conduo da orquestra. O primeiro  o da preciso, que tem o italiano Arturo Toscanini (1867-1957) como o principal representante. Toscanini adorava dizer que seguia com fidelidade as ordens impressas na partitura  mas regia sem elas, de cor. Era um ditador, dispensando insultos (co era um dos preferidos) a seus comandados. O alemo Wilhelm Furtwngler (1886-1954), anttese de Toscanini, era afvel com os msicos e um tanto atrapalhado. Nunca conseguiu dirigir um carro porque confundia os pedais. Furtwngler no tinha gestual preciso, mas compensava com musicalidade e carisma. Ele moldou a sonoridade da Filarmnica de Berlim, que depois se tomaria a melhor orquestra do mundo sob o comando de Karajan  que Furtwngler, alis, detestava. Recusava-se at a pronunciar o nome de seu sucessor, chamando-o apenas de K, ou, com desprezo, pequeno K.
     A msica dos mestres  Bach, Haydn, Mozart, Beethoven, Mahler  est entre as expresses mais elevadas do gnio humano. A ideia de que os esquemas harmnicos da msica tenham uma correspondncia celeste vem do grego Pitgoras, no sculo VI a.C. Os metafsicos dizem que a msica  a nica manifestao terrena que existe no cu. Os fsicos, com sua teoria das supercordas, explicam a estrutura mais ntima da matria como um monumental concerto csmico de vibraes em dez dimenses. Tanta elevao espiritual, paradoxalmente, s pode ser produzida e desfrutada, como mostra o experimento italiano, quando maestros tiranos ou doces impem sua vontade ao ego de instrumentistas, sejam eles medocres ou virtuoses.

PATRONO DA PRECISO - O maestro italiano Arturo Toscanini (1867-1957): diretor artstico da Filarmnica de Nova York orgulhava-se de seguir  risca os mandamentos expressos na partitura. Tambm eternizou a figura do regente temperamental. Quando ainda era estudante de msica, na Itlia, matou e cozinhou o gato de um professor com quem andava s turras.

A ESCOLA DA EMOO - O regente alemo Wilhelm Furtwngler (1886-1954): ele moldou a sonoridade da Filarmnica de Berlim,  frente da qual permaneceu mesmo durante o regime nazista  pelo que teria de se explicar depois da II Guerra. Interpretava as obras com muita liberdade, cortando e modificando a msica original.

2. TELEVISO - COMDIA IRADA
Em Tratamento de Choque, Charlie Sheen mais uma vez faz rir com uma verso de sua prpria personalidade torta.

     No comando de uma sesso de terapia coletiva, o psiclogo interpretado por Charlie Sheen d a seus pacientes um exemplo muito pessoal de como expressar a raiva na conversa com um hipottico patro. Voc no pode me demitir  eu  que pedi demisso. Se quiser me substituir por outro sujeito qualquer, v em frente. No ser a mesma coisa, vocifera. Na abertura de Tratamento de Choque  que estreia nesta quinta-feira no canal pago TBS muitodivertido , Sheen faz uma provocadora referncia  sua demisso, em 2011, de Two and a Half Men. Depois de uma sucesso de escndalos com drogas, barracos domsticos e entrevistas bizarras nas quais insultava o produtor Chuck Lorre, o ator-problema acabou ejetado daquela que era a srie cmica de maior sucesso da TV aberta americana. Volta agora na sitcom de maior sucesso da TV paga: Tratamento de Choque alcanou uma mdia de 4,5 milhes de espectadores nos dez episdios da primeira temporada, e a produo de outros noventa j est programada. Como Two and a Half Men, o programa se vale de cenrios espartanos e de uma claque desavergonhada. Seu trunfo tambm  o mesmo: a confuso entre a persona representada por Sheen e a sua personalidade real. Ashton Kutcher, que substituiu Sheen em Two and a Half Men, no carrega a qualidade dbia de ser to cafajeste quanto o personagem que interpreta. O substituto, de fato, no  a mesma coisa.
     Na nova srie, que lamentavelmente ser exibida em verso dublada (e nem
todas as operadoras de TV a cabo oferecero a escolha do udio original com legenda), Sheen  Charlie Goodson, ex-jogador de beisebol forado a encerrar a carreira depois de detonar o prprio joelho numa reao destemperada  e de grande efeito cmico  em campo. Goodson ento se forma em psicologia, especializando-se em lidar com aqueles nveis de raiva patolgica de que ele mesmo sofre. O terapeuta atende uma extravagante galeria de pacientes na mesma casa em que vive com a filha adolescente. Tambm presta assistncia a um grupo de presidirios, incluindo dois bandidos negros que tm um caso gay. Equilibrando a profuso de personagens, as boas interpretaes  em especial de Selma Blair, a terapeuta (e, em franco desrespeito ao cdigo de tica profissional, amante) de Charlie, e Noureen DeWulf, uma paciente estourada  no deixam a receita desandar. Mas o show  mesmo de Sheen. Ele no perde a fleuma nem duelando com o pai, Martin Sheen, no nono episdio. Ao reencontrarem sua cafajestice, os fs de Two and a Half Men ficaro com ainda mais raiva do engomadinho Ashton Kutcher.
MARCELO MARTHE


3. CINEMA  A LTIMA VANGUARDA
Com primorosa pesquisa de imagens e edio gil, o documentrio Tropiclia conta a breve e fulgurante histria de um movimento que transformou a MPB.
SRGIO MARTINS

     A tropiclia no durou nem dois anos. O marco zero do movimento se deu em outubro de 1967, com as apresentaes de Caetano Veloso e Gilberto Gil no III Festival da Msica Popular Brasileira, da TV Record. Em dezembro do ano seguinte, o AI-5, incio da fase mais linha-dura do regime militar, poria um fim s extravagncias comportamentais patrocinadas pela dupla em seus shows  Caetano e Gil seriam presos em So Paulo dias depois da proclamao do ato institucional. O perodo de cana e o posterior exlio da dupla em Londres encurtaram a durao da ltima vanguarda brasileira, sucessora pop do modernismo de 1922 e da poesia concreta dos anos 50. Mas o estrago j estava feito: os tropicalistas haviam mostrado ao pas uma frmula mais contempornea e universal de fazer e apreciar msica, que at hoje dita os rumos da MPB. A vida breve mas fulgurante do movimento  apresentada em Tropiclia (Brasil, 2012; em cartaz desde sexta-feira), de Marcelo Machado.  um documentrio direto, com edio gil e fartas imagens histricas. Dura enxutos 82 minutos e deixa no espectador um gosto de quero mais.
     Embora no geral opte por apresentar os fatos em ordem cronolgica, o filme comea com uma cena rara que documenta o fim do movimento: Caetano e Gil cantam em um programa na televiso portuguesa, em 1969  e o primeiro avisa que a tropiclia no existe mais como movimento. Ali j se torna clara a inteno de Machado de contar a histria pela tica de seus dois protagonistas. Todos os outros numerosos personagens  entre eles, Tom Z, Nara Leo, Gal Costa, Torquato Neto  gravitam em torno de Caetano e Gil. Foram os baianos, afinal, que deram o pontap inicial na baguna, com Domingo no Parque, de Gil, e Alegria, Alegria, de Caetano, em 1967. A opo da dupla de se fazer acompanhar por bandas de rock no festival da Record (Caetano com os Beat Boys, Gil com Os Mutantes) incomodou os puristas que no gostavam de instrumentos eltricos. Quase d para afirmar que o pas vivia sob duas ditaduras: a militar, iniciada em abril de 1964, e a da MPB, que defendia uma cano de razes populares, purgada de qualquer influncia estrangeira (ainda que a bossa nova, que bebeu no jazz americano, j contasse com a tolerncia dos patrulheiros ideolgico-musicais). O choque maior entre a tropiclia e os conservadores da MPB se deu no III Festival Internacional da Cano, em 1968, quando a barulhenta cano  Proibido Proibir, de Caetano, foi vaiada. O compositor baiano respondeu com um discurso inflamado  e proftico. Se vocs forem em poltica como so em esttica, estamos feitos, disse, acusador, para um pblico composto sobretudo da esquerda estudantil.
     O documentrio de Marcelo Machado refine cenas preciosas de arquivo. Algumas foram vistas recentemente em Uma Noite em 67, de Ricardo Calil e Renato Terra, que trata do festival da Record. Outras eram desconhecidas at para os tropicalistas. Machado conta que Caetano nunca havia assistido  apresentao que ele, Gil e um bando de amigos fizeram no festival da Ilha de Wight, em 1970. Esse material  costurado com habilidade e um bom-senso para contrastes: Machado justape, por exemplo, entrevistas do maestro Rogrio Duprat (1932-2006), que ajudou a formatar a esttica sonora da tropiclia, a falas do empresrio e produtor Guilherme Arajo (1936-2007), que, por sua viso mais comercial da msica, era detestado pelo maestro. Em um momento arrepiante, a verso de Caetano para Corao Materno, bolero trgico de Vicente Celestino (1894-1968) que foi gravado no disco coletivo da tropiclia, serve como msica de fundo para o enterro do estudante Edson Lus de Lima Souto, morto por um policial durante um protesto no Rio.
     Com uma influncia longeva no s na msica mas tambm no cinema, na literatura, nas artes e at na moda, a tropiclia  nome tirado de uma instalao de Hlio Oiticica (1937-1980)  representou um golpe de ar fresco e um choque eltrico na msica e na cultura brasileiras. Deu nova dimenso a expresses musicais e culturais s quais o bom gosto dominante (aquele das pessoas da sala de jantar de que fala uma cano de Caetano e Gil) s devotou desprezo: Chacrinha, a jovem guarda, Vicente Celestino. Certas cores e elementos tropicalistas ainda so discernveis na cultura recente  por exemplo, no manguebit do Recife, ou talvez at nas cores vibrantes dos dramalhes do espanhol Pedro Almodvar, um admirador de Caetano. De outro lado, a libertinagem musical da tropiclia e sua relativizao radical dos padres de gosto contriburam para um permissivo vale-tudo na msica popular, em que qualquer porcaria massiva  funk carioca, tecnobrega paraense , quando conta com o devido aval esttico-antropolgico da turma descolada,  considerada biscoito fino. Mas Tropiclia, o filme, no se preocupa com o legado do movimento que lhe d ttulo. Todo o foco est na curta vida do tropicalismo no Brasil, estendendo-se depois ao exlio de Caetano e Gil em Londres. Um retrato vibrante de um dos momentos de maior efervescncia criativa da msica brasileira.


4. LIVROS  O TRIBUNO DA INTERNET
Nos textos compilados em O Pas dos Petralhas II, Reinaldo Azevedo sobe ao palanque da palavra escrita para combater a mediocridade reinante no pas.
AUGUSTO NUNES

     Milhares de frequentadores do blog poltico mais movimentado do Brasil desconfiam h muito tempo que no existe apenas um Reinaldo Azevedo. E difcil admitir que um nico par de mos produza tantos textos sem oscilaes de qualidade, ou que a mesma cabea reflita sempre com brilho sobre assuntos to distintos. A suspeita ameaa virar certeza ao fim da leitura de O Pas dos Petralhas II (Record, 338 pginas; 32,90 reais). O inimigo agora  o mesmo, avisa no subttulo essa coletnea de artigos publicados entre 2009 e 2012 no site de VEJA ou na edio impressa da revista. Mas o adversrio se desdobra em numerosas tribos e sub-raas, e para enfrentar a nao lulopetista  com sucesso  parecem entrar em combate, simultaneamente, muitos Reinaldos Azevedos. Engano. A forma e o contedo atestam que todos convivem num crebro s, mas singularmente plural.
     Favorecido pela diviso por temas. O Pas dos Petralhas II deixa claro que, conforme a tropa a enfrentar, a misso de derrot-la  confiada  verso mais familiarizada com a rea conflagrada. O cristo movido pela f genuna, por exemplo,  quem trata de atacar os defensores do aborto ou resistir ao que chama de cristofobia, fenmeno que fez do catolicismo a religio mais perseguida no maior pas catlico do mundo (habitado por gente que descumpre aplicadamente todos os Dez Mandamentos e vai  missa como quem sobe ao cadafalso). O pensador sem patres nem arreios cuida das milcias do pensamento, ou de racistas homiziados na esgotosfera. E todas as verses se juntam na guerra sem trguas ao chefe dos petralhas  o Apedeuta, o Aiatolula, o nome da doena que devasta o Brasil.
     Percebi, com satisfao, que os textos esto unidos por um propsito: a defesa dos fundamentos da democracia poltica, das liberdades de mercado e da economia de mercado, frequentemente assediadas por um estado que se pretende um Leviat meio carnavalizado ou por um carnaval de patrulheiros ideolgicos que mal escondem sua algazarra autoritria, registra o autor j na introduo, que celebra num dos pargrafos, sem nenhum escorrego demaggico, a influncia exercida pelos leitores sobre o que pensa e escreve. Faz sentido. A pgina eletrnica no site de VEJA  acessada entre 100.000 e 150.000 vezes por dia  e j atingiu 243.640. Essa imensido de seguidores o tornou uma pessoa melhor.
     Nada a ver com bondade barata, que  frequentemente o outro nome da capitulao. O catlico praticante nunca foi de dar a outra face  bofetada. Reinaldo prefere bater primeiro. E sempre esbofeteia por ltimo. Se  verdade que vence uma polmica quem escreve o artigo que fica sem resposta, como garantia Carlos Lacerda, ento Reinaldo no perdeu nenhuma. Tanto quanto o maior orador do sculo XX, o lutador que combate a Era da Mediocridade gosta de uma boa briga. Lacerda, que tambm escrevia muito bem, era imbatvel no duelo verbal. Reinaldo fala com a segurana de palanqueiro veterano, mas foi com a arma da escrita que se transformou no maior tribuno da internet.
     Como os grandes polemistas que existiram num Brasil que no tratava a inteligncia a pontaps nem louvava a ignorncia, Reinaldo Azevedo  extraordinariamente culto e bem informado. Administra um repertrio vocabular cujas dimenses o incluem num grupo de brasileiros que talvez no chegue a cinco dgitos. Provido da fina ironia que  uma forma superior de inteligncia, coleciona luminosidades de Nelson Rodrigues. Que, como mostra o glossrio que completa o livro, consegue resumir em uma ou duas palavras.
     Esquerdopata, por exemplo,  a expresso que criou para batizar o esquerdista patolgico, disposto a eliminar os severos monstros da dominao ideolgica que ainda assombram seu sono. Favor no confundir com esquerdofrnico, neologismo que identifica o esquerdista dividido, aquele para quem o supervit primrio era coisa de direita no governo FHC e passou a ser um ato de inteligncia da esquerda no governo Lula. Alvos preferenciais ganham apelidos definitivos.  o caso de megalonanico, que tem sua expresso material no ministro da Defesa e ex-chanceler Celso Amorim, nanico para todos os efeitos prticos, mas megalo nas intenes e, certamente, na viso que tem de si mesmo.
     No Brasil dos colunistas federais, dos blogueiros estatizados, dos escritores governistas, dos eruditos de almanaque e dos historiadores googledependentes,  com esse arsenal feito de slabas que Reinaldo ensina diariamente como deve agir quem preza a independncia intelectual e como se faz oposio sem concesses e sem medos. Pode-se discordar de algumas ideias que expe, nunca da honestidade com que as defende. Ele acredita to incondicionalmente no que escreve que faz questo de aumentar com maisculas a estatura das vogais e consoantes, alm de encerrar afirmaes mais incisivas com um ponto de exclamao  a bengala do idioma.
     O livro ainda no estava pronto quando as livrarias encomendaram 15.000 exemplares. Esgotada previamente a primeira edio, outros 5000 j esto na linha de montagem. A maioria vai melhorar a estante dos admiradores, mas no so poucos os que logo estaro piorando a vida dos que amam odiar Reinaldo Azevedo. Para o polemista vocacional, ambas as notcias so boas. Mal sabem os difamadores que, ao proceder assim, fortalecem o blog porque outros tantos vo chegando, informa no artigo de abertura, coerentemente encerrado com um primeiro tapa  e a primeira bengalada: Podem vir quente que eu estou fervendo!


5. VEJA RECOMENDA
EXPOSIO
LASAR SEGALL, OBRAS SOBRE PAPEL (DE 23 DE AGOSTO A 20 DE OUTUBRO NA PINAKOTHEKE CULTURAL, RIO DE JANEIRO)
 Ao desembarcar no Brasil pela primeira vez, em 1913, o artista lituano Lasar Segall (1891-1957) tinha fama de pintor impressionista. Fez muitos amigos entre os intelectuais da poca e deixou algumas obras em colees particulares da prspera elite do caf. Onze anos depois, voltou decidido a ficar  naturalizou-se brasileiro em 1927  e trouxe, alm da forte influncia do expressionismo alemo, um estilo altamente pessoal que iria se aclimatar tanto ao modernismo praticado naquele momento quanto ao concretismo que vigoraria nos anos 50. Sua capacidade de participar de vrios movimentos e correntes estticas, aliada  explorao de diversas tcnicas,  o principal mote desta mostra, que rene 71 trabalhos do acervo da famlia do artista, muitos deles inditos. So pinturas, desenhos e gravuras que retratam temas como judasmo, emigrantes, mulatos, prostituio e morte. Alguns deles deram origem a obras maiores, como a srie Mangue (1926-1929) e a tela Navio de Emigrantes (1939-1941). Lasar Segall era o artista do olhar aflito, diz o curador Max Perlingeiro na apresentao do livro que acompanha a mostra.

DVD
HOMELAND  A PRIMEIRA TEMPORADA (FOX)
 Em misso no Iraque, a agente Carrie Mathison (Claire Danes) ouve de um prisioneiro que um militar americano teria sido convertido em terrorista a servio do extremismo islmico. No se conhece a identidade do suposto traidor. Dez meses depois, o sargento Nicholas Brody (Damian Lewis)  libertado de um cativeiro de oito anos no Afeganisto. Carrie est convencida de que  ele o inimigo infiltrado. Essa convico inquebrantvel pode vir da intuio de uma agente excepcional, ou ser apenas fruto de uma mente delirante  Carrie sofre de transtorno bipolar, que a faz alternar perodos de euforia e depresso. Essa permanente incerteza sobre o que  fato ou paranoia  o combustvel de uma senhora srie de suspense. Trata-se da melhor traduo ficcional do estado de esprito americano nos tempos da guerra ao terror. Enquanto se aguarda a estreia da nova temporada na TV paga, prevista para 7 de outubro, o pblico pode conferir por que, nesse nicho, a doidinha Carrie  em tudo superior ao truculento agente Jack Bauer do sucesso 24 Horas  alis, dos mesmos criadores, Howard Gordon e Alex Gansa.

LIVROS
KONSTANTINOS KAVFIS, DE HAROLDO DE CAMPOS (COSACNAIFY; 64 PGINAS; 45 REAIS)
 Quando morreu, em 2003, o poeta Haroldo de Campos estava trabalhando em uma antologia extensa do poeta grego Konstantinos Kavfis (1863-1933). No concluiu o projeto, mas deixou quinze poemas traduzidos, compilados agora neste volume bilngue. Talvez o maior poeta da lngua grega moderna, Kavfis elegeu a histria e os mitos da Grcia antiga como tema central de sua obra  mas trata esse pesado legado cultural com fina e desencantada ironia. Haroldo de Campos s vezes se permite certos maneirismos e liberdades indevidas  como a aluso engraadinha a um verso famoso de Carlos Drummond de Andrade no final de  Espera dos Brbaros, o mais conhecido poema de Kavfis. Mas esses deslizes so ricamente compensados pela fluncia de seu verso, pela riqueza de seu lxico e pela originalidade de suas invenes lingusticas. Leia-se, por exemplo, taca, serena e cristalina evocao da ilha do heri Ulisses  e seu porto final.

DEIXA ELA ENTRAR, DE JOHN AJVIDE LJNDQVIST (TRADUO DE MARISOL SANTOS MOREIRA; GLOBO; 504 PGINAS; 49,90 REAIS)
 Alm de render ao autor a alcunha de Stephen King europeu, Deixa Ela Entrar  publicado em 2004  mereceu duas adaptaes para o cinema: um filme sueco com status de cult e uma produo americana menos ambiciosa. A trama sobre um garoto de 12 anos, vtima de bullying, que faz amizade com a vizinha que parece ter a sua idade  mas tem apetite por sangue  revela um impacto maior ao ser degustada em letra de frma. No existe aqui o glamour romntico comum s crnicas vampirescas do momento. Oskar, o anti-heri, coleciona recortes de jornal com histrias de crimes hediondos. Eli, a criana morta-viva, mantm seu protetor, um manaco de meia-idade, subjugado em uma relao doentia. Outros personagens so tipos comuns de um subrbio de Estocolmo, vivendo episdios de violncia descritos de maneira fria.  terror no apartamento ao lado: prximo, domstico e, portanto, muito perturbador.

DISCO
TRIZ, ANDR MEHMARI, CHICO PINHEIRO E SRGIO SANTOS (BURITI)
 O pianista fluminense Andr Mehmari trafega tanto pelo meio popular quanto pelo erudito, com uma rica discografia instrumental e msicas interpretadas pelas principais orquestras do pas. O violonista e guitarrista paulistano Chico Pinheiro tem os ps fincados na escola do jazz e da MPB e entre seus admiradores est o virtuose americano do piano Brad Mehldau. Srgio Santos, cantor e violonista mineiro, fez sua estreia profissional em Missa dos Quilombos (1982), de Milton Nascimento, e sua msica abrange ritmos africanos e de seu estado natal. Triz  o encontro dessas personalidades de formao to distinta, unidas pelo objetivo comum de fazer boa msica. Embora traga criaes individuais (as melhores so Arabesca, de Pinheiro, e Mirabolante, de Mehmari, que nesta faixa toca at acordeo),  nas parcerias que o disco cresce, conjugando o estilo de cada um em uma unidade de grande beleza. O choro Sim, de autoria do trio, e Prana Prana, de Mehmari e Pinheiro, esto entre os pontos altos do CD.


6. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA
2. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
3. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA
4. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
5. A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO
6. Assassins Creed  A Cruzada Secreta  Oliver Bowden. GALERA RECORD 
7. Herana  Christopher Paolini. ROCCO 
8. Manuscrito Encontrado em Accra  Paulo Coelho. SEXTANTE 
9. Jogos Vorazes  Suzanne Collins. ROCCO 
10.  O Casamento  Nicholas Sparks. ARQUEIRO 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 
4. As Melhores Receitas do Que Marravilha!  Claude Troisgros. GLOBO
5. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL
6. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
7. Mentes Ansiosas  Ana Beatriz Barbosa Silva. FONTANAR 
8. One Direction  Danny White. BEST SELLER 
9. 30 Minutos e Pronto  Jamie Oliver. GLOBO 
10. Para Sempre  Kim e Krickitt Carpenter. NOVO CONCEITO 

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
2. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE
3. Agora  pra Valer!  marcia Luz. DVS EDITORAS
4. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
5. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
6. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
7. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA 
8. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE 
9. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD 
10. Pelas Portas do Corao  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA


7. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  POR MOTIVO DE SEGURANO
     Quem usa a internet est sujeito a grandes sustos, dos quais  exemplo o e-mail proveniente do Banco do Brasil, gerncia cujo ttulo era: Por motivo de segurano o Banco do Brasil informar (sic). Seguia-se o texto: 
     Atualizao de segurana  identificamos um problema grave em seu acesso 
     Prezado cliente (a)
     Seu acesso ao Banco do Brasil Internet Banking foi expirado pelo nosso sistema, devido a uma atualizao de nossos servidores. Informamos que para continuar o accesso a sua conta ser necessrio accessar o link informado abaixo, ou comparea a uma agencia mais perto (sic)
     Agradeemos a sua compreeno (sic)
     Meu Deus!, reagiria o destinatrio distrado. Vo cortar meu acesso ao Banco do Brasil. Em seguida lembraria que no tem conta no Banco do Brasil  por que diabos quereria acess-lo? Aliviado, ele se permitiria os vagares de uma anlise de texto. Chama ateno primeiro o segurano do ttulo da mensagem. O texto que segue fala em segurana, o que indica que o vocbulo, em sua forma habitual, no  estranho ao redator. O segurano lhe teria ocorrido para conferir  mensagem o carter intimidatrio que s mesmo um o  capaz de proporcionar. O accesso e o accessar, em vez de erro, podem ser tomados como um toque de erudio. Fazem um aceno aos avs latinos accessus e accessare. Mas o mais interessante  o cliente (a). O redator se dirige ao cliente e  clienta. Foi sem dvida (que fofo!) seu jeito de reverenciar a presidenta Dilma.
     Mais alguns dias, e vem esta outra mensagem, da parte de Brunetti Cobranas, mais assustadora ainda:
     Braslia, 26 de agosto de 2012
     A Duplicata em anexo, est venciada desde o dia 01 de Julho de 2012, e o no pagamento da mesma at o prximo dia 28 implicar em Protesto, medida inicial no Processo de Execuo que iremos intentar contra V Sa. depois de Prostetada o pagamento ter que ser efetuado no 3 cartrio do Protesto de Ttulos (sic)
     Anexado, vinha o link para visualizar a temvel duplicata.
     Quem est habituado  internet sabe o que so essas mensagens  armadilhas para entrar no computador alheio e capturar-lhe os segredos. Algum ainda cair nelas? Salva-nos o sistema educacional brasileiro. Nesta hora, nunca ser demais louv-lo; se fosse mais eficiente, o risco de levar tais mensagens a srio seria maior. As duas transcritas acima chegaram ao usurio de e-mails que vos fala nas ltimas semanas. Mas pensa o leitor que s lhe cabem desgraas? Tambm lhe sorri a fortuna, como atesta esta terceira mensagem, proveniente da Cocacola Lottory Promotion (desta vez vai sem os sic, a esta altura j dispensveis):
     bom dia
     Temos o prazer de inform-lo do resultado de agosto 2012 loteria Coca-Cola que foi concludo este ms. Final anual atrai realizada no (1 de setembro de 2012) pela Coca-Cola loteria Promoo Mundial, o seu endereo de e-mail estava entre os oito vencedores que ganharam (R 1,5 milhes) um milho de quinhentas mil libras sobre a promoo COCA-COLA loteria realizada em Londres, o seu pagamento, que foi configurado no Carto Multibanco em seu nome  pronto para reivindicar o pagamento atravs do nosso centro em Benin Ento, gentilmente contacte Carto Multibanco centro de cartes de pagamento com o seu endereo em receptores em
     Ateno: Sr Pedro Dossou, Diretoi/ Tel: + 229 98 95 04
     Atm sede em Cotonou, Benin Carto/ Email: ubaatmcard@hotmail.fr/
     Obrigado atenciosamente
     Mr: Frank John
     O desapego pelos bens materiais j fez este colunista desprezar fabulosas ofertas de heranas encalacradas na Nigria, no Congo e em Uganda, sempre escritas em ingls. Desta vez, o missivista deu-se ao trabalho de mandar a mensagem, se no em portugus, com vocbulos da lngua portuguesa, ainda que talvez soprados por um tradutor eletrnico. Gentil Mr. John! Mande l os (R 1,5 milhes) um milho e quinhentas mil libras. E s dizer onde apanhar o pacote. Comemoraremos depois com um porre de Coca-Cola.

